Colaboração em tempos de crise: impacto coletivo como estratégia de enfrentamento à pandemia

No último painel do segundo dia do Fórum Brasileiro de Impacto Coletivo, que aconteceu em setembro, lideranças de três instituições compartilharam suas experiências sobre como ações colaborativas em rede podem mitigar os efeitos da pandemia nas populações mais vulneráveis. O evento foi realizado pela United Way Brasil em aliança estratégica com Collective Impact Fórum, Aspen Institute, Global Opportunity Youth Network (GOYN) e Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas). Apoio de disseminação de conhecimento do Instituto Sabin e cooperação da FEMSA e OEI.

A mesa mediada por Ericah Gonçalves, cofundadora da Pappo Consultoria, trouxe experiências bem-sucedidas para o enfrentamento dos desafios causados – ou alargados – pela crise sanitária, social e econômica gerada pela pandemia, em 2020 e 2021.

Compuseram esse diálogo Paula Fabiani, CEO do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento (Idis), Ian Bautista, diretor de engajamento cívico da Greater Milwaukee Foundation e Constanza Gómez Romero, diretora executiva da Colombia Cuida Colombia.

FUNDO EMERGENCIAL PARA A SAÚDE

O Idis reuniu sua equipe, em março de 2020, para pensar em como enfrentar as adversidades que atingiram as populações mais vulneráveis na pandemia, especialmente para fortalecer a área da saúde. A criação de um fundo teve a adesão das organizações Movimento Bem Maior e a plataforma Bsocial, que conseguiram atrair doadores, com aportes diversos. Também contaram com a parceria da Sitawi Finanças do Bem, que organizou toda a parte jurídica e financeira da ação, além da Synergos e do GIFE, que apoiaram a divulgação da iniciativa. 

“Elegemos, por meio de um comitê técnico, 59 hospitais filantrópicos, em regiões mais vulneráveis, um centro de pesquisa e uma organização social para receberem os recursos. O fundo foi desativado depois de pouco mais de 200 dias de seu lançamento, porque percebemos que havíamos cumprido o nosso objetivo para aquele momento da pandemia. Conseguimos atrair mais de 10 mil doadores, recebemos mais de 40 milhões de reais, beneficiando 53 municípios de 25 estados brasileiros. Entregamos 3,7 milhões de equipamentos de proteção individual, 3.621 equipamentos hospitalares e 362 mil testes, além de medicamentos e insumos. Por fim, como resultado de todo esse processo, elaboramos um relatório e um vídeo que explicita o passo a passo de como criar um fundo emergencial, a partir de nossa experiência”, conta Paula, do Idis.

“A gente enfrenta muitos desafios nessa construção coletiva, mas não tenho dúvidas de que é muito mais potente e que nos leva bem mais longe, com impactos sistêmicos e duradouros.”

Paula Fabiani, CEO do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento (Idis)

Para ela, alguns aspectos precisam ser levados em conta para que ações como esta sejam mais assertivas: definir um foco, uma prioridade; criar instrumentos legais para garantir a confiança do doador; elaborar uma estratégia de comunicação robusta, envolvendo diferentes atores que tenham credibilidade e influência junto à opinião pública; e elaborar um relatório completo e detalhado de prestação de contas.


AÇÃO NA PANDEMIA COM FOCO NA QUESTÃO RACIAL

Ian Bautista, da Greater Milwaukee Foundation, compartilhou a experiência do grupo formado na sua cidade que, além de enfrentar os desafios da pandemia, para garantir melhores condições de saúde e bem-estar à população local, focou na questão do racismo, após o assassinato de George Floyd e Jakob, dois negros dos Estados Unidos. As ações de enfrentamento envolveram diferentes atores, desde os que estão nas comunidades, nas organizações sociais, lideranças locais, até os que fazem parte dos governos, com foco na população negra, que é maioria na cidade.

“Nós sabemos que não teremos sucesso na região, a não ser quando garantirmos a igualdade de oportunidades. Por isso, a nossa abordagem é focada na igualdade racial.”

Ian Bautista, da Greater Milwaukee Foundation

“Nosso propósito é alinhar fundos, recursos, produtos e serviços essenciais para vencer os desafios da pandemia, a recessão e a injustiça social, influenciando as políticas públicas. Pessoas de diferentes setores são essenciais na composição da equipe para que possamos alcançar nossos objetivos. Enfrentamos muitos obstáculos até chegar no que somos hoje. O primeiro deles foi conseguir reunir líderes e organizações, especialmente os ligados aos governos. Tínhamos muitas pessoas e instituições querendo doar recursos e serviços, mas faltavam estrutura e logística para recebê-los. Precisamos construir essa estrutura e a confiança no nosso trabalho, questões nas quais continuamos focados. Estivemos por trás dos dois fundos criados pelo governo dos Estados Unidos para apoiar as populações mais pobres”, contou Ian.

O grupo também viabilizou a distribuição de quatro milhões de máscaras e criou um portal para divulgar informações sobre a pandemia, além de postos de trabalho, ajuda financeira e outras questões emergenciais para a população local. Coordenou fundos filantrópicos para a captação de mais de 50 milhões de dólares que serviram como subsídio a ações de enfrentamento à pandemia. O aprendizado dessa primeira etapa foi utilizado na segunda fase de ações, com a estruturação de um projeto junto ao governo federal, o American Rescue Plan Act (Arpa), com o apoio de especialistas em impacto coletivo.


COMBATE À FOME COMO PONTO DE PARTIDA

Na Colômbia, a partir de março de 2020, a população se manteve isolada, em suas casas. Com o tempo, panos vermelhos começaram se serem colocados nas janelas e portas das casas, indicando que aquelas famílias estavam passando fome. Pessoas que têm muita experiência com a área social, desde empresários e mídia a membros de associações, instituições da sociedade civil e cidadãos começaram a se comunicar por meio de grupos de WhatsApp para articular maneiras de ajudar as pessoas e situação vulnerável. Hoje, todos se comunicam em um grupo só, com cerca de 400 membros, que passou a ser chamado de movimento Colombia cuida da Colombia.

Inicialmente unidos para achar soluções de combate à fome, o movimento também se dedica a resolver desafios que foram ampliados pela Covid-19, mas que já eram questões sociais significativas à realidade do País, como a pobreza.

“Os 400 parceiros e milhares de voluntários juntaram forças e conseguiram arrecadar dois milhões de dólares, beneficiando 30 dos 32 estados colombianos, levando alimento à mesa de três milhões de pessoas, por meio de doações, geração de emprego e novos empreendimentos. Levamos educação remota e saúde a lugares que não tinham acesso a esses serviços. Nosso objetivo é cobrir lacunas e, para isso, conversamos com as comunidades e com parceiros para traçar planos conjuntos que solucionem os problemas, construindo agendas locais. Elaboramos sistemas ágeis, como um aplicativo que promove o aproveitamento de alimentos, evitando desperdícios, a fim de suprir a falta de comida em famílias de regiões mais pobres. Conseguimos entregar cinco toneladas de comida em um ano. Atualmente, estamos trabalhando com segurança alimentar, projetos produtivos, soluções para o tratamento de água, geração de energia solar e acesso à internet e à tecnologia”, compartilhou Constanza.

“Quando trabalhamos com parceiros, o que incomoda, aquilo com que não se concorda precisa ser colocado na mesa. Para construir a confiança é importante trazer essas diferenças de maneira aberta e negociar os interesses de forma transparente.” 

Constanza Gómez Romero, diretora executiva da Colombia Cuida da Colombia

Para ela, além de estruturar uma relação de confiança com a comunidade, para que as ações possam ser pensadas horizontalmente, é preciso que se estabeleçam estratégias claras, que partam de uma agenda comum, que se paute em planejamento e na estruturação de grupos de trabalho, que contem com uma coordenação efetiva e com muita paciência e esperança. 


DURANTE TODO FÓRUM BRASILEIRO DE IMPACTO COLABORATIVO, OS PARTICIPANTES FORAM CONVIDADOS A COLABORAR E COMPARTILHAR SUAS REFLEXÕES SOBRE OS TEMAS ABORDADOS NOS PAINÉIS. DURANTE A EXPLANAÇÃO DAS TRÊS LIDERANÇAS FEMININAS, ESTAS FORAM AS PRINCIPAIS EXPRESSÕES REGISTRADAS NO JAMBOARD:

  • A colaboração é fundamental no pós-pandemia
  • A pandemia criou oportunidades para solucionar problemas que já existiam antes dela e que foram ampliados na crise
  • Agenda comum, monitoramento, avaliação e prestação de contas são fundamentais para o processo de impacto coletivo
  • Confiança e relacionamento são essenciais nos processos colaborativos

Assista ao painel, na íntegra

Financiamento de iniciativas colaborativas no Brasil

O painel do segundo dia do Fórum apresentou diferentes formas de financiar o impacto coletivo. Representantes de instituições que gerenciam fundos e modelos inovadores para a otimização de recursos compartilharam desafios e oportunidades para potencializar iniciativas sociais colaborativas. O painel compõe o evento realizado em setembro, pela United Way Brasil, em aliança estratégica com Collective Impact Fórum, Aspen Institute, Global Opportunity Youth Network (GOYN) e Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife). Apoio de disseminação de conhecimento do Instituto Sabin e cooperação da FEMSA e OEI.

Natália Leme, responsável por parcerias e programas da Fundação Arymax, mediou o painel sobre financiamento de iniciativas colaborativas, que contou com a participação de Greta Salvi (diretora Brasil da Latimpacto), Marco Gorini (cofundador do Grupo Din4mo) e Leonardo Letelier (fundador e CEO da Sitawi Finanças do Bem).

Durante o diálogo, a mesa explicou as diferentes formas de financiamento e a relação com o conceito de um novo capitalismo que adota o posicionamento empresarial com foca na geração de valor para todas as partes envolvidas (colaboradores, clientes, fornecedores, acionistas, comunidades e meio ambiente). “O setor filantrópico também tem discutido outros modelos de atuação, horizontais e participativos, envolvendo todos os interessados”, explicou a mediadora.

Natália Leme, responsável por parcerias e programas da Fundação Arymax, mediou o painel

Com o surgimento da Covid-19 e seus reflexos negativos nas áreas econômica e social, o terceiro setor se viu diante de um desafio que exigiu rapidez e magnitude das ações, potencializando a criação de redes de colaboração entre diferentes atores, construindo relações de confiança entre executores e investidores.


IMPACTO SOCIOAMBIENTAL PARA TODA LATAM

Com relação à causa do meio ambiente, por exemplo, a Latimpacto se estruturou há um ano e meio, unindo organizações de setores e países diferentes para gerar impacto socioambiental com o objetivo de romper fronteiras setoriais e regionais. Fazem parte da rede os provedores de capital (fundações, institutos, consultorias, universidades, poder público e mercado financeiro), contando, atualmente, com cerca de 100 membros. O trabalho dessa rede tem como base o conceito de venture philantropy, recentemente implementado na América Latina, que une o olhar mais profundo (da filantropia) com a visão estratégica (do mercado financeiro) sobre os desafios socioambientais. 

“A venture philantropy se ancora em três pilares: o financiamento personalizado, que é o entendimento sobre a organização a ser apoiada (em que estágio está, de que precisa, se é uma doação ou um empréstimo, que impacto ela gera) e o investidor que a apoia, para equalizar recursos e ações. O segundo pilar é o apoio não financeiro, complementar ao primeiro, para organizações em estágio inicial. Por fim, a gestão e medição, para apoios de longo prazo, para identificar o nível de impacto causado pela ação da organização”, explicou Greta.


FOCO NA AGENDA 2030

Para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a Dyn4mo tem trabalhado para mobilizar capital que acelere o financiamento e cubra o gap de 3,5 trilhões de dólares anuais necessários para financiar a agenda de 2030. “É o desafio da alocação de recursos. Temos de discutir a cultura das priorizações e colocar o impacto como valor. O blended (a combinação de diferentes atores) é uma das ferramentas para avançarmos nessa discussão. Não sairemos do lugar usando as mesmas práticas, por isso, além da inovação, precisamos de seis posturas que podem mudar o jogo: persistência, paciência, convergência, resiliência, coerência e consistência”, definiu Marco, da Dyn4mo, que complementou: “Ou a gente senta, como sociedade, para compor com todos os atores a fim de que priorizem a agenda 2030 – e o blended entra aí como uma possibilidade dentre tantas – ou não vamos conseguir atingir os ODS.” Para ele, um ator é essencial nessa mobilização: as plataformas de investimento coletivo, que podem mexer o ponteiro no ponto de vista da cultura e da colaboração para repensar as prioridades na hora de definir onde distribuir os recursos.

“Ou a gente senta, como sociedade, para compor com todos os atores a fim de que priorizem a agenda 2030 – e o blended entra aí como uma possibilidade dentre tantas – ou não vamos conseguir atingir os ODS.

MARCO GORIni, do grupo din4mo


INVESTIMENTOS COM RETORNO

As organizações que promovem impacto coletivo, sejam elas com objetivo ou não de lucro, podem tomar e devolver capital se ele for ofertado de uma maneira articulada, pensando em prazo, taxas de juros, garantia e flexibilidades. Foi essa linha de pensamento que deu origem a Sitawi Finanças do Bem, que hoje faz o papel de mediador para organizar, estruturar e dar uma voz mais consolidada aos grupos que querem apresentar seus projetos para financiadores, por exemplo.

A Sitawi tem três áreas de atuação:

  • A primeira se chama área de desenvolvimento de impacto, que começou com empréstimos para as organizações sociais focadas em gerar impacto socioambiental, e depois migrou para uma plataforma de empréstimo coletivo, retornando aos investidores seu capital, com juros.
  • A segunda é uma área de gestão de fundos filantrópicos para viabilizar iniciativas sociais que nascem de doadores, de movimentos e coletivos que, por exemplo, não possuem CNPJ para receber o capital.
  • Por fim, atuamos com o desenho e a implementação de programas de desenvolvimento territorial, captando recursos para suas causas, como acontece com um projeto na Amazônia”, explicou Leonardo.

O painel abriu um leque de possibilidades e confirmou a necessidade de se valorizar fundos, plataformas e captações de recursos coletivos que possam responder rapidamente a iniciativas que tragam respostas eficientes a problemas complexos.

Assista ao painel, na íntegra:

DURANTE TODO FÓRUM BRASILEIRO DE IMPACTO COLABORATIVO, OS PARTICIPANTES FORAM CONVIDADOS A COLABORAR E COMPARTILHAR SUAS REFLEXÕES SOBRE OS TEMAS ABORDADOS NOS PAINÉIS. DURANTE A EXPLANAÇÃO DAS TRÊS LIDERANÇAS FEMININAS, ESTAS FORAM AS PRINCIPAIS EXPRESSÕES REGISTRADAS NO JAMBOARD:

  • Fundos filantrópicos ganham relevância quando temos coletivos de ambos os lados
  • Medição de impacto é superimportante para acompanhar o sucesso do investimento
  • O diálogo deve permanecer ao longo de todo o processo para garantir valor para todos os envolvidos
  • Todo o ambiente influencia os mecanismos: regras, cultura, mecanismos, estabilidade política etc.
  • Não é falta de mecanismo, de investimento, mas, sim, a cultura vigente. Precisamos repensar as variáveis de investimento, onde o impacto passa a ter um valor muito maior

Processos colaborativos em temas estratégicos: um caso de inclusão produtiva de jovens

O primeiro painel do segundo dia do Fórum apresentou o movimento Global Opportunity Youth Network (GOYN), que atua pela inclusão produtiva das juventudes em territórios vulneráveis, usando o impacto coletivo como estratégia. Representantes de algumas cidades onde o programa acontece compartilharam aprendizados sobre as vivências e os avanços da atuação em rede, nas suas realidades. O evento foi realizado em setembro, pela United Way Brasil, em aliança estratégica com Collective Impact Fórum, Aspen Institute, Global Opportunity Youth Network (GOYN) e Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife). Apoio de disseminação de conhecimento do Instituto Sabin e cooperação da FEMSA e OEI.

O painel, mediado por Jamie McAuliffe, diretor do Aspen Institute, reuniu Daniela Saraiva, líder do GOYN SP (Brasil), ao lado da jovem-potência Ana Inêz; Camilo Carreño, diretor do GOYN Bogotá (Colômbia), que estava com o jovem-potência Jorge; e Mahmoud Noor, liderança do GOYN Mombasa (Quênia), com a jovem-potência Amina.

Jamie iniciou o diálogo, apresentando o GOYN, uma iniciativa global do Aspen Institute, criado, inicialmente, para atender as necessidades de empregabilidade de jovens dos Estados Unidos. As experiências bem-sucedidas estão sendo compartilhadas com outras cidades de países diversos, com o propósito de apoiar, globalmente, as diferentes juventudes para que possam construir uma carreira profissional bem-sucedida, quebrando ciclos de pobreza.

O GOYN não inventou a roda, como bem lembrou Jamie: “Já existem grupos e instituições, promovendo apoio aos jovens. O que pretendemos é criar um ecossistema mais coeso, reunindo todos os atores em uma rede de colaboração: governo, empresas, organizações sociais, jovens… Assim, ampliamos as chances de sucesso e de avançar mais rapidamente nessa agenda, de uma forma coordenada.”

Outra característica do movimento internacional, que utiliza a metodologia do impacto coletivo, é a atuação local. “Acreditamos, por exemplo, que as empresas dos territórios podem gerar empregos para os jovens das comunidades onde estão inseridas, respeitando maneiras de ser e necessidades de cada região”, reforçou Jamie.

Jamie McAuliffe, do Aspen Institute, na imagem acima


GOYN São Paulo: jovens no centro das decisões 

Na imagem: Daniela Saraiva, Líder do GOYN SP, acima e Ana Inês, jovem-potência do GOYN SP, abaixo

Daniela Saraiva, liderança do GOYN SP, conta que a iniciativa deu seus primeiros passos no Brasil seguindo as premissas do movimento global. “Construímos uma coalizão de vontades e de pessoas próximas que têm interesse pela causa e pela estrutura do trabalho colaborativo”. Hoje, o GOYN SP reúne mais de 80 instituições que atuam, coletivamente, para gerar oportunidades que, até 2030, promovam a inclusão no mercado de trabalho de 100 mil jovens das periferias da maior cidade do País. 

A implementação em São Paulo, articulada pela United Way Brasil, demandou algumas ações prioritárias, como a mobilização e o fortalecimento das relações de confiança entre empresas e instituições de diferentes áreas e a realização de pesquisas e estudos sobre o cenário das juventudes, mapeando oportunidades e desafios, para se pensar em soluções baseadas em evidências. Outra questão essencial foi garantir que o jovem esteja, de fato, no centro das iniciativas, não só como sujeito delas, mas como coparticipante na tomada de decisões, exercendo a liderança ativa.

“A gente chegou nas reuniões on-line e ficou lado a lado com representantes do governo, das empresas, com pessoas com as quais a gente nunca teve contato. Nos debates e nas conversas, a gente colocava nossas dores. As empresas e instituições compartilhavam as delas. Essa troca teve um grande valor, porque tínhamos uma visão estratégica mais ampla, olhando para as diferentes pontas desse ecossistema. Existem muitas ações que atuam pela empregabilidade, empreendedorismo e renda dos jovens, mas a maioria não parte dessa escuta. Não ouve o que o jovem pensa sobre elas”, revelou Ana Inês, jovem-potência. 

GOYN Bogotá: a importância dos dados para traçar cenários e soluções

Camilo Carreño, diretor do GOYN Bogotá (Colômbia), contou que, a princípio, o estudo para mapear os territórios demonstrou, em uma mesma região, que os problemas eram heterogêneos, inspirando a estruturação de uma agenda e, mais tarde, a implementação de iniciativas setoriais para realizá-la. “Assim, conseguimos integrar diferentes leituras sobre o mercado de trabalho e compreender quais eram os setores que precisavam ser trabalhados para garantir a empregabilidade das juventudes.”, explicou.

Em Bogotá, os jovens foram ouvidos e, a partir dessa escuta, as ações foram desenhadas coletivamente. Com o advento da pandemia e suas consequências, com base em pesquisas, percebeu-se que era importante incentivar os jovens, especialmente as mulheres, a terem uma presença mais ativa na área da construção, pensando na retomada econômica pós crise sanitária. O próximo passo foi vencer estereótipos e preconceitos sobre mulheres nesse ramo de trabalho – tanto junto ao mercado como entre as próprias juventudes.

Na imagem: acima, Camilo Carreño, do GOYN Bogotá | à esquerda, Jorge, jovem-potência do GOYN Bogotá | à direita, Jamie McAuliffe, do Aspen Institute

Os dados têm servido, para o GOYN Bogotá, não só com o objetivo de traçar cenários, mas, sobretudo, para monitorar indicadores e avaliar resultados, de forma sistêmica. 

Para Jorge, jovem-potência que vive na capital do País, “o GOYN Bogotá levou para a agenda pública a discussão sobre preconceito e machismo que impedem as mulheres de exercerem profissões em espaço comumente ocupados pelos homens. O Projeto Mulheres na Construção é muito forte e inovador, porque tem trabalhado a inclusão das jovens nesse nicho da produtividade, envolvendo diferentes áreas.”

GOYN Mombasa: políticas para jovens e jovens na política

A realidade da violência armada e de crimes, que atinge a cidade, acaba sendo um limitador para que as juventudes se sintam aceitas no ecossistema produtivo, já que o preconceito sobre sua origem acaba por afastá-los das oportunidades de trabalho e estudo, nos territórios adjacentes. As políticas públicas, até então, pouco tratavam das necessidades dos jovens, no entanto, como contou Mahmoud, liderança do GOYN Mombasa, por influência do movimento e dos diálogos com o governo, a Constituição passou a garantir uma porcentagem do PIB para ações voltadas à formação e empregabilidade dos jovens.

“Para fortalecer a rede de organizações e empresas que atuam pela inclusão produtiva das juventudes, nós criamos o Conselho de Jovens, com cerca de 50 representantes dos condados de Mombasa. Trazemos pessoas do governo e das empresas para estar nesse conselho multissetorial e discutir com os jovens as ações necessárias”, contou Mohamoud.

A ideia é empoderar as juventudes para que se posicionem diante das questões que as afetam, apoiando-as com mentorias e diálogos para que se apropriem dos recursos que têm para avançar nos seus propósitos coletivos de inclusão.

Amina, jovem-potência de Mombasa, contou que o Conselho busca influenciar políticas públicas e garantir direitos dos jovens. “Nós chamamos os jovens para que façam parte a fim de que, juntos, a gente mude o sistema. Uma de nossas conquistas foi ajudar a definir a distribuição do orçamento público nos condados. A gente se senta com adultos e idosos e discute, juntos, o que fazer pelo território”.

Jamie McAuliffe, do Aspen Institute, acima

| Amina, do GOYN Mombasa, à esquerda | Mahmoud Noor, do GOYN Mombasa, à direita


DURANTE TODO O FÓRUM BRASILEIRO DE IMPACTO COLABORATIVO, OS PARTICIPANTES FORAM CONVIDADOS A COMPARTILHAR SUAS REFLEXÕES SOBRE OS TEMAS ABORDADOS NOS PAINÉIS. DURANTE A EXPLANAÇÃO DO GOYN, ESTAS FORAM AS PRINCIPAIS EXPRESSÕES REGISTRADAS NO JAMBOARD:

  • Jovem no centro como parte do processo
  • As juventudes devem participar desde o início da elaboração e execução de ações pela sua inclusão produtiva e social
  • A confiança e a transparência entre diferentes instituições nutrem o impacto coletivo
  • O impacto coletivo traz coesão ao ecossistema para soluções a partir da comunidade local
  • É importante trazer os aspectos positivos das juventudes, uma outra visão sobre os jovens

Na próxima matéria, confira os principais tópicos trazidos pelos especialistas sobre os desafios e as oportunidades de financiamento de iniciativas colaborativas no Brasil.

Quer assistir ao Fórum na íntegra?

Impacto coletivo na prática e seus resultados

No último painel do primeiro dia do Fórum Brasileiro de Impacto Coletivo, que aconteceu em setembro, lideranças femininas de três organizações internacionais compartilharam suas experiências, dialogando sobre os desafios da metodologia em diferentes contextos. O evento foi realizado pela United Way Brasil em aliança estratégica com Collective Impact Fórum, Aspen Institute, Global Opportunity Youth Network (GOYN) e Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas). Apoio de disseminação de conhecimento do Instituto Sabin e cooperação da FEMSA e OEI.

O painel “Impacto coletivo na prática e seus resultados” foi mediado por Jennifer Splanksy, diretora-executiva do Collective Impact Forum, e contou com as presenças de Liz Weaver, co-CEO do Tamarack Institut; Paulina Klein, do Impacto Coletivo para pesca e aquicultura do México; e Amy Ahrens, vice-presidente de Parcerias de Impacto Coletivo da United Way.

O objetivo dessa conversa era tangibilizar a teoria sobre impacto coletivo em ações concretas. Liz Weaver apresentou a experiência do Tamarack Institute, cujo objetivo é a redução da pobreza no Canadá. Uma ação que já completou 20 anos e que partiu de iniciativas que pudessem transformar a maneira como os canadenses olhavam para essa questão. Para dar conta de um longo e robusto processo, três organizações assumiram a coordenação das estratégias e, atualmente, 300 comunidades são beneficiadas pelos resultados do impacto coletivo.

Uma das partes fundamentais dessa equação complexa foi promover a colaboração transetorial para atuar em diferentes segmentos e garantir oportunidades às populações mais pobres. Foram mobilizados os diversos níveis de governo, empresas, instituições e organizações filantrópicas, em um trabalho coletivo.

“Quando começamos, em 2000, o índice de pobreza de nossa população era de 15%. Queríamos diminuí-lo. Hoje, essa curva está caindo e passamos para a etapa de erradicação da pobreza nos próximos 10 anos”, explicou Liz.

As ações para conter e acabar com a pobreza envolvem a área de transporte, habitação (com um investimento de 55 bilhões de dólares em políticas de moradia), educação, saúde etc. O “pulo do gato” foi identificar as prioridades dos territórios e pensar com eles soluções para contemplá-las. “Criamos uma rede formada pelas comunidades, que se mantêm conectadas. Aproveitamos o que já existia de bom nessas comunidades e trabalhamos a partir daí”, reforçou.

Atuar coletivamente, envolvendo todos os níveis 

Em Salt Lake City, no estado de Utah (EUA), a atuação da United Way foi essencial para entender o que, de fato, as comunidades estavam vivenciando e como as ações impactavam positivamente ou não. “A gente via uma desconexão. De um lado, a situação ruim das comunidades e de outro as pessoas dizendo que os resultados das ações do programa social eram maravilhosos”, comentou Amy Ahrens.

Então, foi necessário ir aos territórios para ouvir essas populações. Fazer parcerias com as instituições locais. Hoje, a United Way mantém uma rede de 40 escolas para discutir com os profissionais, as famílias e os alunos as questões que afetam o aprendizado e a permanência na sala de aula, por exemplo.

Também reuniram dados sobre o que desejavam mudar e como medir resultados qualitativos para avaliar se o que estava sendo feito realmente trazia benefícios e avanços aos públicos-alvo.

Outra ação realizada foi convidar nove líderes comunitários para desenhar estratégias que garantam a empregabilidade de jovens em situação de vulnerabilidades, assim como a formação de grupos formados por pessoas dos territórios em torno de um objetivo específico, por exemplo, o aumento da taxa de estudantes que concluem as etapas de ensino. Com esse ponto comum, todos passaram a se dedicar e a desenhar estratégias capazes de transformar as comunidades a partir de uma educação mais qualificada. “Para que as mudanças aconteçam, é preciso trabalhar com atores de todos os níveis relacionados a uma determinada questão a fim de que persigam, coletivamente, resultados equitativos, sempre com base em dados, indicadores e metas comuns”, reforçou Amy.

Atuação nacional para enfrentar um desafio de todos

Fortalecer o setor da pesca e aquicultura é um propósito do México, já que essas atividades têm importante papel na economia do País e afetam, também, questões relacionadas ao meio ambiente.

“Nesse setor existem muitos conflitos que envolvem diferentes atores, desde os que trabalham na governança nacional e local até pescadores, produtores e moradores das comunidades. Além disso, temos de cuidar dos impactos na natureza”, elucidou Paulina Klein. A preocupação em manter um equilíbrio levou algumas organizações sociais a se juntarem e convidarem outros setores para um amplo diálogo e um trabalho multissetorial.

Vários avanços têm sido celebrados, como a criação de recomendações e estratégias para as comunidades pesqueiras sobre a preservação do meio ambiente, assim como a elaboração de procedimentos de inspeção e vigilância para o combate da pesca ilegal.

Paulina acredita que um dos aspectos determinantes para o sucesso e a manutenção desse trabalho, a partir da metodologia de impacto coletivo, foi a construção de relações de confiança. “É isso que mantém as pessoas compromissadas e mobilizadas, querendo saber e fazer mais, mesmo após quatro anos de implementação da inciativa”, relatou.


Assista ao painel, na íntegra:

DURANTE TODO FÓRUM BRASILEIRO DE IMPACTO COLABORATIVO, OS PARTICIPANTES FORAM CONVIDADOS A COLABORAR E COMPARTILHAR SUAS REFLEXÕES SOBRE OS TEMAS ABORDADOS NOS PAINÉIS. DURANTE A EXPLANAÇÃO DAS TRÊS LIDERANÇAS FEMININAS, ESTAS FORAM AS PRINCIPAIS EXPRESSÕES REGISTRADAS NO JAMBOARD:

  • Criar soluções sem dialogar com quem será beneficiado por elas não gera impacto coletivo. Trazer essas pessoas para as ações para pensar e planejar juntos é essencial!
  • Sem uma colaboração intersetorial, as mudanças não avançam
  • Impacto não é uma listinha de itens a serem checados
  • Impacto Coletivo é um framework para diferentes abordagens
  • Paciência e olhar a longo prazo são vitais para viabilizar o impacto coletivo
  • Mobilizar e intermediar conhecimento, parcerias e investimento
  • Processos coletivos geram aprendizagens diárias e constantes
  • Dados são fundamentais para embasar as soluções

Na próxima matéria, confira as principais reflexões trazidas pelos representantes do The Global Opportunity Youth Network (GOYN) sobre o complexo tema da empregabilidade das juventudes e a metodologia do impacto coletivo como estratégia para superar desafios da inclusão produtiva de jovens.

Quer assistir ao Fórum na íntegra?

Metodologia do impacto coletivo: uma estratégia para a colaboração que gera resultados

Na terceira matéria sobre o Fórum Brasileiro de Impacto Coletivo vamos saber como surgiu esse conceito por meio da entrevista inédita com um dos “pais” da metodologia, John Kania. O Fórum foi realizado pela United Way Brasil em aliança estratégica com Collective Impact Fórum, Aspen Institute, Global Opportunity Youth Network (GOYN) e Gife (Grupo de Institutos Fundações e Empresas), com apoio de disseminação de conhecimento do Instituto Sabin e cooperação da FEMSA e OIE.

Na segunda parte do evento, no dia 29, o jornalista Fernando Rossetti entrevistou John Kania, fundador e diretor-executivo do Collective Change Lab. John é pesquisador, escritor e palestrante sobre temas que discutem como as organizações e as pessoas têm empreendido mudanças nas diferentes realidades, nos últimos 30 anos, sendo considerado um dos criadores do conceito de impacto coletivo. 

Tudo começou em 2011, quando ele atuava na FSG e estava trabalhando com diferentes organizações, individualmente. “Todas tinham missões incríveis e queriam mudar o mundo, o que é ótimo, mas ficava claro que nenhuma delas conseguiria atingir suas metas isoladamente. Então, demos alguns passos para trás e começamos uma pesquisa para obter insights e pensar em como reunir instituições de setores diferentes para obter avanços positivos em maior escala”, explicou John, em resposta à pergunta de Fernando, sobre como a metodologia foi desenvolvida.

O resultado dessa pesquisa trouxe a confirmação de que a colaboração entre as organizações era mínima. Com base no pouco que existia, fizeram uma análise mais aprofundada e chegaram a cinco condições básicas para que a atuação coletiva aconteça e gere impacto: ter uma agenda comum (definição do problema e o que se quer fazer para enfrentá-lo); indicadores compartilhados (organizações que atuam com a mesma causa deveriam usar o mesmo escopo de indicadores para entender avanços e desafios comuns); ações que se reforçam (integrar as atividades que as instituições realizam); comunicação contínua (um diálogo permanente entre as organizações que estão atuando juntas); ter uma organização de base (responsável em coordenar todo o processo e os envolvidos nessa operação coletiva).

Assista ao painel de John Kania e Fernando Rossetti abaixo:


Impacto coletivo é para problemas complexos e exige mudança de cultura

Para John, existem três tipos de desafios: simples, complicados e complexos. O impacto coletivo se aplica aos complexos que, na nossa realidade, estão relacionados a questões sobre as quais não sabemos tudo, que envolvem muitas pessoas, situações e instituições, como é o caso de vacinar toda a população contra a Covid-19, por exemplo. 

“Para mudar um sistema e torná-lo eficiente, é preciso trazê-lo para a sala”, explicou John. “É necessário envolver todos os players que fazem esse sistema acontecer, porque essas pessoas e instituições precisam trabalhar juntas e eu acredito que a essência do impacto coletivo está nos relacionamentos. Acredito que se quisermos mudar sistemas, precisamos mudar as pessoas, ou seja, os esforços de impacto coletivo estão relacionados à mudança de cultura, que é feita por pessoas. Estas vêm e vão, mas a cultura fica. E se ela for frágil, as transformações não se sustentam”, reforçou. Ou seja, mudar o sistema pressupõe mudar as condições que o criaram e que o mantêm dessa forma, ineficiente.

John acredita que as responsabilidades devem ser distribuídas quando se trata de atuar em colaboração para gerar impacto coletivo. Nunca se deve depender de um líder, mas a cooperação como base, porque não é um modo hierarquizado de se fazer as coisas. “Tem um papel, na metodologia, que é o líder do sistema, que coletiva a liderança sistêmica, cujo papel é nutrir e apoiar a mudança, ao invés de ‘puxá-la’”, definiu o especialista. “Diferentes especialistas se juntam para pensar em soluções para um problema específico”, reforçou.

Soluções de e para longo prazo

Dentre as perguntas trazidas pelo público do evento, uma mereceu destaque nessa conversa: “Qual o tempo necessário para uma ação de impacto coletivo acabar e se cumprir?”. John foi cirúrgico na sua resposta: “Problemas complexos são questões de gerações inteiras. A pobreza, por exemplo, é geracional e, provavelmente, vai existir por muito tempo, mas que, se percebida como essencial, tende a se enfraquecer com o tempo, diante das ações coletivas e coordenadas”. Mas ele também aconselha: “Se não se obtém progressos com determinada questão, em dois ou três anos, provavelmente é algo que não vale a pena continuar. Para se obter sucesso, é preciso que sejam percebidas mudanças sistêmicas.”

Com relação aos investimentos necessários para sustentar iniciativas de impacto coletivo, John acredita que organizações e empresas com fins filantrópicos podem manter a espinha dorsal da ação (uma organização que protagonize a articulação da colaboração, por exemplo), mas também podem ter um papel importante no corpo da liderança, “normalmente um comitê consultivo que seja multissetorial”, recomendou.


DURANTE TODO FÓRUM BRASILEIRO DE IMPACTO COLABORATIVO, OS PARTICIPANTES FORAM CONVIDADOS A COLABORAR E COMPARTILHAR SUAS REFLEXÕES SOBRE OS TEMAS ABORDADOS NOS PAINÉIS. DURANTE A EXPLANAÇÃO DE JOHN KANIA, EM ENTREVISTA AO FERNANDO ROSSETTI, ESTAS FORAM AS PRINCIPAIS EXPRESSÕES REGISTRADAS NO JAMBOARD
  • “As surpresas e os imprevistos fazem parte do processo”
  • “O impacto coletivo acontece a partir de soluções integradas, que precisam ser comunicadas e alinhadas entre as organizações envolvidas”
  • “Uma agenda comum exige um trabalho em conjunto se quer, de fato, gerar impacto sustentável”
  • “Se ocorrem mudanças, as soluções vão emergir”
  • “A essência do impacto coletivo tem a ver com os relacionamentos”
  • “A oportunidade de colaboração é uma forma estrutural e o caminho para o futuro”
  • “Para as empresas se engajarem, as causas têm de ser cruciais para os negócios”
  • “A gestão do conhecimento ajuda a construir o tecido e fortalecer o processo”
  • “Importante que os participantes entendam os progressos, vejam sentido e queiram continuar. São processos longos, mas com ganhos reais”

Na próxima matéria, confira o impacto coletivo na prática, por meio de experiências compartilhadas por Liz Weaver, co-CEO do Tamarack Institute, Paulina Klein, do Impacto Coletivo para Pesca e Aquicultura do México, Amy Ahrens Terpstra, vice-presidente de parcerias de impacto coletivo da United Way Salt Lake, mediadas por Jennifer Splansky Juster, diretora executiva do Collective Impact Forum da FSG.

Quer assistir ao Fórum na íntegra?

Um convite à colaboração: criando soluções para problemas complexos

Esta é a segunda de uma série de matérias que vão abordar os painéis do Fórum Brasileiro de Impacto Coletivo, dias 29 e 30 de setembro, realizado pela United Way Brasil em aliança estratégica com Collective Impact Fórum, Aspen Institute, Global Opportunity Youth Network (GOYN) e Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas). Apoio de disseminação de conhecimento do Instituto Sabin e colaboração da FEMSA e OEI.

Na manhã do dia 29 de setembro, mediados por Fernanda Schimidt, jornalista e editora do Ecoa (UOL), Adam Kahane, diretor da Reos e especialista em solução de conflitos, e Nina Silva, idealizadora do Movimento Black Money, trouxeram suas experiências que utilizam a colaboração ao enfrentamento de problemas complexos.

Na conversa, Adam defendeu que é possível trabalhar com pessoas diversas, inclusive aquelas com as quais não concordamos, nem confiamos. “Não é fácil, não há garantias, mas é possível”, reforçou. “O que eu aprendi nos mais de 30 anos de atuação é que, quando estamos diante de uma situação complexa, se tentarmos usar métodos que funcionam para situações não complexas, acabamos tendo uma fragmentação, obsolescência e polarização. Para obter sucesso nesse tipo de problema, precisamos de um processo que seja sistêmico, experimental e colaborativo”, ou seja, ele acredita que a metodologia do impacto coletivo é uma estratégia afinada à resolução de situações muito difíceis.

Sua percepção tem como base diversas experiências, como quando assumiu o papel de facilitador das reuniões realizadas entre diferentes atores, inclusive opositores entre si, na transição do regime de opressão racial, o apartheid, que predominou na África do Sul por muitos anos, para a democracia. A mesma vivência se deu mais recentemente, em 2014, no México, para intermediar o fim de conflitos que geraram o massacre de alunos e professores indígenas, num contexto de muita corrupção naquele país. O trabalho começou há seis anos e está em curso, criando uma aliança entre mais de 100 lideranças de diferentes áreas.  

“Se você não consegue entender como é parte do problema, como você participa das questões que levam à situação atual, então você não pode ser parte da solução.”

Para Adam, “normalmente, tendemos a impor o que queremos fazer, afetando ou não os outros. A colaboração, às vezes, é vista como primeira opção, mas, geralmente, é a última maneira adotada de se chegar ao que se quer. A experiência de colaboração pode ser muito diferente do que se espera. Ou seja, é importante que as pessoas abracem o conflito e a possibilidade de se conectarem umas com as outras, no lugar de buscar um consenso. É essencial que cada um reconheça o seu papel nesse processo e o que é preciso fazer diferente para que a situação mude, no lugar de impor mudanças para as pessoas. A essência do impacto coletivo, de uma colaboração extensiva ou ampliada, é não esperar que os outros façam alguma coisa, mas remover os obstáculos para que os envolvidos consigam expressar aquilo que os motiva mais profundamente, remover os obstáculos para a expressão do poder, do amor e da justiça. A forma de aprender colaboração é a mão na massa, é se engajar com os outros, de raças, níveis sociais e faixas etárias diferentes. A experiência de atuar com pessoas diversas é que nos dá o entendimento sobre potenciais e desafios de se criar essa capacidade colaborativa”, finalizou.

RACISMO ESTRUTURAL, UM PROBLEMA COMPLEXO

Diferentemente de Adam, a experiência de Nina Silva com o impacto coletivo nasce de uma questão pessoal, que se amplia para um problema mais complexo no mundo e, especialmente, no Brasil. Cansada de não se reconhecer nos ambientes sociais e corporativos, ela foi vivenciar realidades em países onde as lutas contra o racismo estão vários passos à frente, para poder contribuir ao cenário brasileiro. Nina, que também integra o Conselho Deliberativo da United Way Brasil, fundou o movimento Black Money, que ela define como um processo em curso estruturado para conectar diferentes agentes que possam contribuir à causa.

Formada na área de TI e open finance, ela explica: “Fui apresentada a uma fresta dentro do sistema, sendo uma mulher preta. Olhei para essa fresta e vi uma chance não só de mobilização e possível carreira, mas, principalmente, como um espaço de mudança de acesso e de oportunidades para uma comunidade inteira. Somos 118,9 milhões de pessoas autodeclaradas negras e pardas, o segundo maior país em população negra no mundo, atrás apenas da Nigéria. Também somamos 53% dos micros e pequenos negócios que movimentam a economia brasileira, motivados pelos 70% de desempregados do país, que são negros e pardos e que acabam empreendendo por necessidade.”

Para Nina, ao falar de processos colaborativos é essencial que se fale em agenda comum, metas e objetivos. No caso do Black Money, essa agenda é o empoderamento, o reequilíbrio para dar poder às pessoas pretas e pardas no Brasil, que não contam com nenhuma ação mais estruturada. O racismo, sem dúvidas, é um problema complexo que arrastamos há anos. É um problema estendido e, portanto, a colaboração para enfrentá-lo também precisa ser estendida. “A pandemia e o homicídio de George Floyd, nos EUA, trouxeram à tona questões importantes sobre o genocídio dos jovens negros no Brasil. Um start colaborativo para que construamos uma agenda enegrecida, onde raça seja colocada como ponto de partida para outras agendas de desigualdades sociais, porque estamos falando de um país negro, em que a expectativa de vida de uma pessoa trans branca é de 35 anos e de uma trans negra é de 25, por exemplo. Ou seja, o fator raça puxa os índices para o agravamento das desigualdades.”

“Quem nunca ouviu falar que ‘se você quiser ir rápido, vá sozinho, mas se quiser ir longe, vá acompanhado’? Esse ditado é a base do trabalho colaborativo.”

Nina Silva

Segundo Nina, diferentemente de outras iniciativas brasileiras, o Black Money tem uma intencionalidade ao agir na questão racial. “A princípio, o movimento tinha como objetivo ser uma consultoria global de tecnologia para pessoas pretas, mas vi que o buraco era mais fundo. A gente precisava falar de educação, de letramento racial, para negros e não negros, e serviços financeiros. Temos, em quatro anos de atuação, 5 mil afro-empreendimentos sendo apoiados pelo Black Money, com o pilar único ‘compre intencionalmente de pessoas pretas, ative seu capital financeiro a serviço da comunidade negra’.”

Para ela, a sociedade precisa ser colaborativa, a partir de dores reais. “A dor da comunidade negra precisa ser uma dor sentida por todos para que a gente possa resolver as demais questões de desigualdades”, ou seja, esta tem de ser a agenda comum para resolver a falta de equidade na sua raiz.


DURANTE TODO FÓRUM BRASILEIRO DE IMPACTO COLABORATIVO, OS PARTICIPANTES FORAM CONVIDADOS A COLABORAR E COMPARTILHAR SUAS REFLEXÕES SOBRE OS TEMAS ABORDADOS NOS PAINÉIS. DURANTE A EXPLANAÇÃO DE ADAM E NINA, ESTAS FORAM AS PRINCIPAIS EXPRESSÕES REGISTRADAS NO JAMBOARD
  • “Trabalho de colaboração traz a diversidade.”
  • “Colaboração é o único caminho para enfrentar os desafios desta década!”
  • “Colaborar pressupõe escuta ativa, atenta, intencional.”
  • “A colaboração muda posturas e visões.”
  • “É necessário um diálogo franco e ativo para mudar a realidade e estrutura  enraizada.”
  • “Se você quiser mudar um sistema, você tem que mudar as pessoas que formam esse sistema. Tem a ver com cultura!”
  • “Colaborar é retirar obstáculos do caminho, de forma conjunta.”
  • “O racismo é um problema complexo, enraizado na sociedade, e só pode ser enfrentado com a atuação coletiva.”
  • “Colaboração de forma estruturada é o caminho do futuro, até para garantirmos os objetivos de desenvolvimento sustentável.”

Na próxima matéria, confira os principais pontos levantados por John Kania, um dos criadores da metodologia de impacto coletivo, o segundo painel do evento, mediado pelo jornalista Fernando Rossetti. 

Evento de Impacto Coletivo discute estratégia para enfrentamento de problemas complexos

SÉRIE FÓRUM BRASILEIRO DE IMPACTO COLETIVO

Esta é a primeira de uma série de matérias que vão abordar os painéis do Fórum Brasileiro de Impacto Coletivo, dias 29 e 30 de setembro, realizado pela United Way Brasil em aliança estratégica com Collective Impact Fórum, Aspen Institute, Global Opportunity Youth Network (GOYN) e Gife (Grupo de Institutos Fundações e Empresas).

“A United Way é uma organização internacional que atua com base na colaboração. Há dois anos a gente se desafiou a articular um programa aqui no Brasil, cuja principal estratégia era o Impacto Coletivo. Foi quando percebemos que esse tema é pouco conhecido e estudado no nosso país. Nós não encontramos materiais em português sobre o assunto. Começamos a pesquisar e decidimos nos unir a outros parceiros para sonhar juntos e idealizar, no Brasil, o primeiro Fórum de Impacto Coletivo. Queríamos trazer essa metodologia para a discussão, compartilhar práticas e disseminar conhecimento, porque já entendemos que o futuro é colaboração!”. Esta fala de Gabriella Bighetti, diretora executiva da United Way Brasil, abriu o 1º Fórum Brasileiro de Impacto Coletivo, realizado pela organização em aliança estratégica com Collective Impact Forum, Aspen Institute, Global Opportunity Youth Network (GOYN) e Gife (Grupo de Institutos Fundações e Empresas), com o apoio de disseminação de conhecimento do Instituto Sabin e a colaboração da Fundación FEMSA e OEI (Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura). 

O FUTURO É A COLABORAÇÃO!

Na manhã do dia 29, mediados por Fernanda Schimidt, jornalista e editora do Ecoa (UOL), Nina Silva, idealizadora do Movimento Black Money, e Adam Kahane, diretor da Reos e especialista em solução de conflitos, trouxeram suas experiências que utilizam a colaboração ao enfrentamento de problemas complexos, como o desafio do racismo estrutural no Brasil e a transição do apartheid para a democracia na África do Sul, assim como o caso de pacificação e transformação no México, após o extermínio de professores e alunos indígenas, em 2014.

No segundo painel do dia, John Kania, um dos “pais” da metodologia Impacto Coletivo, foi entrevistado pelo jornalista Fernando Rossetti e contou sobre a origem do método e seus principais aspectos e as contribuições que têm dado para que questões complexas possam ser trabalhadas coletivamente por instituições, com base em uma agenda comum, monitoramento compartilhado, atividades que se reforcem mutuamente, comunicação contínua e uma organização de base para coordenar e alinhar o trabalho de todos.

Liz Weaver, co-CEO do Tamarack Institute, Paulina Klein, do Movimento Impacto Coletivo para Pesca e Aquicultura do México, Amy Ahrens Terpstra, vice-presidente de parcerias de impacto coletivo da United Way Salt Lake, participaram do terceiro painel do dia, mediado por Jennifer Splansky Juster, diretora executiva do Collective Forum Impacto da FSG. Essas lideranças femininas compartilharam ações práticas que realizam em seus países, todos pautados na colaboração, para gerar transformações sistêmicas e sustentáveis às populações mais vulneráveis.

IMPACTO COLETIVO É A SOLUÇÃO

No segundo dia do Fórum, Erika Sanchez Saez, autora do livro Filantropia Colaborativa, organizado pelo GIFE, abriu a manhã para falar sobre os achados de sua pesquisa, que deu origem à publicação. Ela fez uma análise de como empresas e instituições podem otimizar os recursos que destinam às causas sociais, por meio da colaboração intencional, a fim de que os resultados sejam mais efetivos e transformadores.

O segundo painel do dia, mediado por Jamie McAuliffe, diretor da Aspen Institute, reuniu as lideranças do GOYN, movimento internacional que atua pela inclusão social e produtiva das juventudes em situação de vulnerabilidade. Daniela Saraiva, do GOYN SP, no Brasil, Mahmoud Noor, do GOYN Mombasa, no Quênia, e Camilo Carreño, do GOYN Bogotá, na Colômbia, trouxeram os desafios e as oportunidades vivenciados nos seus territórios e como a metodologia do Impacto Coletivo integra o DNA do movimento para que jovens possam ser protagonistas de suas histórias e das mudanças sociais nos seus territórios. Esse protagonismo foi trazido por Ana Inez (São Paulo), Amina (Mombasa) e Jorge (Colômbia), lideranças jovens do GOYN, que expuseram as suas realidades e as ações coletivas pensadas para transformá-las. Em São Paulo, o GOYN é articulado pela United Way Brasil e conta com uma rede colaborativa formada por mais de 80 organizações cujo objetivo é incluir produtivamente 100 mil jovens-potência da cidade nos próximos anos.

O financiamento de iniciativas colaborativas foi o tema do painel mediado por Natália Leme, da Fundação Arymax, reunindo Leonardo Letelier, fundador e CEO da SITAWI Finanças do Bem, Marco Gorini, presidente do conselho AngaDin4mo e cofundador do Grupo Din4mo, e Greta Salvi, diretora no Brasil da Latimpacto. Nesse diálogo, foram tratados diferentes modelos de financiamento que contribuem para a questão da filantropia coletiva, a noção de um novo capitalismo que adota um posicionamento empresarial focado em gerar valor para todas as partes interessadas, contemplando não só os acionistas, como, também, os colaboradores, clientes, fornecedores, comunidades e meio ambiente. Discutiu-se, também, as redes de colaboração que se formaram para financiar soluções à crise gerada pela Covid-19, exigindo ações rápidas com resultados de curto prazo. 

O penúltimo painel da segunda manhã do evento trouxe ao debate a importância e os desafios da avaliação de iniciativas de impacto coletivo. Fabíola Galli, gerente de conhecimento aplicado da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e do Núcleo Ciência pela Infância, e Priscilla Cruz, presidente executiva do Todos pela Educação, mediadas por Rogério Silva, sócio do Pacto e doutor em saúde coletiva, abordaram o tema sob a perspectiva das políticas públicas voltadas à primeira infância e à educação pública brasileira.

Para encerrar o Fórum, Paula Fabiani, CEO do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento (IDIS), Ian Bautista, diretor de engajamento cívico da Greater Milwaukee Foundation, e Constanza Gómez Romero, diretora executiva da Colombia Cuida Colombia, mediados por Ericah Gonçalves, cofundadora da Pappo Consultoria, compuseram o painel que trouxe a prática das ações colaborativas de grande impacto, vivenciadas em territórios distintos, pontuando os desafios e os avanços, especialmente em ações voltadas ao enfrentamento da pandemia e das desigualdades sociais.

PUBLICAÇÕES INÉDITAS TRADUZIDAS PARA O PORTUGUÊS

Gabriel Cardoso, gerente executivo do Instituto Sabin, lançou no Fórum estudos e pesquisas traduzidos pelo Instituto para a Língua Portuguesa sobre a metodologia de Impacto Coletivo. O objetivo é munir pessoas e instituições com conteúdo de qualidade para embasar discussões e ações ancoradas na metodologia, colocando o Brasil no caminho de grandes mudanças, a partir de um trabalho coletivo e colaborativo.

Na biblioteca do Fórum, você vai encontrar as seguintes publicações para download:

  • Impacto Coletivo, por John Kania e Mark Kramer
  • Canalizando a Mudança: Fazendo o Trabalho de Impacto Coletivo, por Fay Hanleybrown, John Kania e Mark Kramer
  • Cartilha do Impacto Coletivo
  • Princípios de Prática de Impacto Coletivo

O evento  alcançou amplo sucesso de audiência, com 1.432 visualizações nos dois dias. Quer assistir ao Fórum na íntegra? Acesse: https://www.forum.unitedwaybrasil.org.br/

Na próxima matéria da série Fórum Brasileiro de Impacto Coletivo, conheça os principais tópicos trazidos por Nina Silva e Adam Kahane, mediados pela jornalista Fernanda Schimidt, no primeiro painel do Fórum, “Um convite à colaboração: criando soluções para problemas complexos.”