“Criança tem de ser prioridade na sociedade. Na empresa não é diferente”, diz Mariza Quindere, da GPTW

Em entrevista para a United Way Brasil (UWB), Mariza Quindere, responsável pela regional do Nordeste da Great Place to Work Brasil, fala sobre a parceria entre as duas organizações; como as corporações podem concorrer à categoria Atenção à Primeira Infância, do prêmio Melhores Empresas para Trabalhar 2022; e as mudanças que políticas corporativas focadas nos primeiros anos de vida tendem a gerar nas equipes e na produtividade. 

UWB – Mariza, por que a parceria com a UWB tem relevância tanto para a GPTW como para o tema primeira infância, que é contemplado pelo prêmio Melhores Empresas para Trabalhar?

Mariza Quindere (MQ) – Essa parceria é relevante para todos. A UWB tem muita credibilidade dentro e fora do terceiro setor, pela forma como conduz suas ações e articula parcerias. Além disso, vocês detêm muito conhecimento sobre primeira infância. Sempre comentamos no GPTW que a UWB é uma de nossas melhores parceiras, especialmente porque nos ajuda a aprofundar o tema nas iniciativas que realizamos.

UWB – Como surgiu essa categoria e o que é preciso para as empresas concorrerem a ela, na edição do prêmio de 2022?

MQ – Nós construímos essa categoria com o apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, há três anos. No início, era um destaque no prêmio nacional das Melhores Empresas para Trabalhar. Depois, percebemos que a primeira infância podia ter luz própria, por isso, o GPTW incluiu o tema na categoria Diversidade. Tudo começa com uma pesquisa que empresas de qualquer segmento podem aplicar junto aos seus colaboradores. E para ser certificada, ela precisa ter a média mínima de 70% e atingir, também, a amostra mínima. Ouço de várias pessoas: “Não temos nada para primeira infância.” Sempre incentivo a responder à pesquisa, mesmo que pensem assim. Porque, quando começam a preencher, percebem que têm, sim. Além disso, é um estímulo para conhecerem o que fazem, ampliar e pensar mais sobre isso. Também percebo que muitas corporações nem sabem o que é primeira infância. Por isso, o ranking acaba se tornando, também, uma ferramenta para informar.

UWB – Quais requisitos as empresas precisam ter para concorrerem à categoria?

MQ – No nosso site está tudo bem explicado, mas já adianto aqui alguns deles: ter, no mínimo, 30 colaboradores; ser nossa certificada; conceder licença-maternidade acima de 4 meses e licença-paternidade de, pelo menos, 20 dias, ambas também para qualquer situação de adoção e para casais homoafetivos; ter auxílio-creche maior que o previsto em lei; possuir sala de lactação; conceder redução específica de jornada de trabalho para lactantes, para além do que está estabelecido pela CLT. 

UWB – E até quando a empresa pode responder a essa pesquisa para participar do ranking 2022? 

MQ – Este ano, a data final para finalizar a pesquisa é 31 de julho, na nossa plataforma. Depois, se atingir a amostra mínima, que garante a certificação da empresa como great place to work, ela escolhe participar do ranking Diversidade/Atenção à Primeira Infância, preenchendo o questionário específico. É autoexplicativo e fácil de seguir o passo a passo.

UWB – A participação das empresas nessa categoria tem sido expressiva? 

MQ – Não, infelizmente. Na edição de 2020, foram apenas 97 empresas inscritas. Em 2021, cinco receberam destaque:  Takeda Distribuidora, Cisco, Accenture do Brasil, Eurofarma Laboratório S/A e IBM Brasil.  Ainda é pouco perto da relevância do tema. Por isso, temos de falar mais a respeito e estimular que participem. Criança tem de ser prioridade na sociedade. Na empresa não é diferente.

UWB – Quais as evidências do impacto positivo de políticas corporativas para a primeira infância nas colaboradoras e nos colaboradores das empresas?

MQ – Quando há investimento na primeira infância, o retorno é garantido, não só na produtividade, mas também no engajamento e permanência dos funcionários. Na pesquisa entre as melhores empresas de 2021, a média de rotatividade do ano é de 5%, em um país que detém o maior índice de turnover nas organizações (índice que aumentou 82% nas companhias, desde 2010). Nessa pesquisa, colaboradores disseram ficar na empresa, porque ela oferece oportunidades de crescimento e qualidade de vida (65%). A falta de suporte, como ausência de auxílio creches, de sala de amamentação, ou mesmo licenças parentais não estendidas abalam a saúde física e emocional de mães e pais de bebês e crianças pequenas. Ainda existem empresas que selecionam mulheres que não têm filhos (e que não pretendem ter). Isso tem de mudar. Temos direito a ter filhos. Na GPTW, por exemplo, a licença parental, tanto para mães como para pais, é de seis meses. O que significam seis meses para uma empresa? E para os pais e o bebê? Essa reflexão tem de estar presente nas políticas internas. 

UWB – Como você sabe, a UWB lançou o Guia de Primeira Infância para Empresas, uma plataforma que reúne mais de 600 iniciativas já implementadas por corporações. Como você avalia essa ferramenta?

MQ – O Guia é ótimo e muito acessado pelas companhias ligadas à GPTW. Ali já existe uma gama de possibilidades sobre o que fazer. Precisamos ampliar o Guia com mais ações e divulgá-lo para que mais corporações o acessem. Recheá-lo de muitas informações para que as pessoas entendam o que é primeira infância e o impacto dos cuidados que temos de ter para refletir em toda a sociedade.

UWB – Na sua opinião, quais ações são imprescindíveis nas políticas corporativas de primeira infância?

MQ – Acredito que licenças parentais estendidas, suporte psicológico, especialmente no puerpério e no retorno das licenças, horários flexíveis e ambiente amigável para mãe ou pai se sentir à vontade, por exemplo, para sair mais cedo e pegar o bebê na creche ou levar ao médico, plano de saúde sem custos para as mães, durante a gestão, são algumas ações que fazem toda a diferença no bem-estar dos colaboradores. É fundamental que as lideranças corporativas pensem nos filhos de seus funcionários como sendo filhos da empresa. 

Agora a United Way Brasil é UWB, que investe na potência das novas gerações para enfrentar as desigualdades sociais

No dia 28 de abril, diferentes atores, que fazem a UWB acontecer, reuniram-se para celebrar os 21 anos da instituição no Brasil e conhecer o reposicionamento da organização para os próximos anos.

“A UWB é essa união. É uma organização que acredita em impacto positivo por meio do trabalho coletivo”. Com esta frase, Juliana Azevedo, até então presidente do Conselho Deliberativo da United Way Brasil, e presidente da P&G no País, abriu o evento comemorativo. 

O primeiro encontro presencial entre equipe, empresas parceiras e associadas, voluntários e conselheiros, depois de dois anos marcados pelo distanciamento social, celebrou, também, uma nova etapa em que a United Way Brasil, com o objetivo de se aproximar ainda mais de diferentes públicos, passa a ser conhecida como UWB. “Vamos apostar com muita força na colaboração, na experimentação e em mudanças sistêmicas em rede para gerar impacto sustentável”, reforçou Juliana.  

A renovação desse compromisso tem razão de ser, afinal, o Brasil na pandemia tinha cerca de 17,7 milhões de cidadãos que voltaram à condição de pobreza, só entre agosto de 2020 e fevereiro de 2021. No total, são 27,2 milhões de pessoas nessa condição, o que corresponde a 12,8% da população.

Luciene Lopes Sanfilippo, Vice-presidente de RH e Comunicação da Lear América do Sul, que no evento foi empossada como a nova presidente do Conselho Deliberativo, no lugar de Juliana, compartilhou os caminhos para os próximos anos da instituição. “

“Falando um pouco mais sobre o novo posicionamento que assumimos, podemos resumir o que fazemos em três palavras: Estuda, Faz e Conecta. A UWB estuda e apoia pesquisas para entender a realidade que precisamos transformar, faz ações embasadas em evidências para enfrentar os desafios mapeados e conecta as pessoas e instituições para alcançar as ações que impactem amplamente nossos públicos-alvo, ou seja, crianças e jovens”.


Nossa missão: investir na potência das novas gerações para mitigar desigualdades

Para enfrentar problemas complexos, que afetam o desenvolvimento integral de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, são necessárias soluções inovadoras e inclusivas, a partir de novos arranjos coletivos que envolvam os diferentes setores sociais.

Na segunda parte do evento, conduzida por Fabio Oliveira, Gerente de Comunicação da Eli Lilly, Tony Marlon, comunicador social, Nina Silva, cofundadora do movimento Black Money, e Mariana Luz, presidente da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, também conselheiros da UWB, compartilharam suas visões sobre o que é preciso priorizar para que possamos, de fato, investir na potência das novas gerações nestes tempos difíceis.  

“As desigualdades não foram criadas pela pandemia. Elas são acumulativas e precisamos priorizar uma gestão de urgências, uma linha de apoio, porque o pior é sempre o que está por vir. Temos de pensar em um projeto de futuro, mas para isso é necessário ver o que já está acontecendo, as soluções pensadas pelos coletivos, que precisam de escala para trazerem resultados de médio e longo prazo”, afirmou Tony Marlon, mostrando às empresas e instituições que há muitas possibilidades em curso, mas que precisam de investimento para ampliar a abrangência e o impacto.

Nina Silva, ativista da causa antirracista, salientou que não só as desigualdades são acumulativas, mas seus efeitos também e recaem, sobretudo, na população negra.

“É importante lembrar que 75% dos 10% de pessoas mais pobres do País são negras. Temos o costume de falar dos efeitos e não das causas. O Brasil é estruturado sobre um sistema de privilégios que mantém a periferia onde ela está”.

“O assassinato de George Floyd, nos EUA, mobilizou as pessoas aqui, que estavam em casa, isoladas, sem ter muito o que fazer. Mas é importante ressaltar que, no Brasil, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto. O maior índice de evasão escolar está entre homens negros, ou seja, a base socioeconômica do País tem cor. Precisamos falar de segurança pública, do direito de existir com segurança, para além da educação, do saneamento. Temos de falar de inclusão e desenvolvimento produtivo. Temos de construir um sistema básico de seguridade de vida, a partir de processos colaborativos e comunitários”, opinou Nina.

Mariana Luz reforçou que a primeira infância é a mãe de todas as causas, por isso, é essencial um olhar diferenciado para a fase da vida humana em que o cérebro faz um milhão de conexões por segundo.

“A primeira infância é uma janela de oportunidades e apoiar a criança para que possa se desenvolver integralmente não é papel só dos pais e responsáveis. Está na Constituição que todos, como sociedade, temos de zelar por nossas crianças. Se entramos nesse espírito coletivo, conseguimos mudar as coisas. Os bebês nascem iguais, mas se eles não têm as mesmas oportunidades, a largada já é desigual.”

“A primeira infância deve ser prioridade, especialmente nas populações mais vulneráveis. Como sociedade, temos de alavancar as ações do poder público. As empresas precisam dar aos seus colaboradores benefícios que os apoiem para que as transformações comecem nessas famílias e sejam sistêmicas”, continuou.

O evento dos 21 anos da UWB aconteceu na sede da empresa associada Eli Lilly, que cedeu seu espaço. Após a celebração, os Conselheiros se reuniram para a Assembleia Geral Ordinária para formalizar a mudança na presidência do Conselho Consultivo e eleger o novo Conselho Fiscal, cujo mandato será encerrado em maio.

Equipe da United Way Brasil vai ao Ceará lançar a Trilha Crescer Aprendendo

O programa de formação parental, Crescer Aprendendo, da United Way Brasil, é parceiro da política pública de primeira infância do Estado do Ceará, desde 2021.

Uma das ações que serão implementadas em 2022 é a Trilha Crescer Aprendendo, que tem como objetivo transformar praças e espaços públicos em ambientes que promovam o lazer e o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 6 anos, a partir da relação criança-família.

Este ano, em fevereiro, a equipe técnica realizou uma visita às redes de ensino de Crato (foto) e Sobral para apresentar os resultados conquistados em 2021 e compartilhar o projeto da Trilha também com representantes das secretarias do meio ambiente e urbanismo, infraestrutura, cultura, segurança pública e desenvolvimento social, já que a proposta envolve todo o território urbano para que seja mais acolhedor e amigável às crianças das cidades. O projeto será implementado em maio.

As duas cidades são apoiadas pela iniciativa Urban95, da Fundação Bernard van Leer, parceira da United Way Brasil. O projeto trabalha com líderes, urbanistas, designers e sociedade civil para focar em bebês e crianças pequenas no planejamento, projeto e na gestão intersetorial de municípios, para que sejam mais saudáveis, mais justos e cheios de vida e ludicidade.

“As cidades são onde as crianças estão, onde as políticas públicas se materializam, onde podemos realmente fazer a diferença na vida de cada família. Apoiar gestores públicos municipais para que vistam as lentes da primeira infância no planejamento de todas as suas ações é nossa meta comum. Buscamos promover interações positivas nas ruas, nos espaços públicos e nos programas e serviços das nossas cidades parceiras. O Crescer Aprendendo é um programa poderoso, convidando pais e educadores a atentarem para a importância de seus atos, nesse comecinho da vida”, explicou Claudia Freitas Vidigal, representante da Fundação Bernard van Leer, no Brasil.

Para encerrar a visita técnica no Estado, a equipe do Crescer Aprendendo se reuniu, em Fortaleza, com o gabinete da primeira-dama e com a Secretaria Estadual de Educação. O objetivo foi a discussão de outras oportunidades de atuação no Ceará com o objetivo de fortalecer a causa da primeira infância.


Avanços nas políticas públicas

Para garantir a perenidade das ações do Crescer Aprendendo, as cidades de Crato e Sobral incluíram o programa como estratégia de formação parental nas escolas, nos seus Planos Municipais de Primeira Infância (PMPI), em fase de conclusão.

Em março, a equipe técnica do programa vai retornar ao Ceará, desta vez para ouvir as crianças e as comunidades atendidas, de escolas predeterminadas, a fim de colher subsídios sólidos para implementar uma Trilha que responda às necessidades e expectativas das alunas e dos alunos.


“Estamos muito animados e envolvidos com a implementação da Trilha Crescer. Sabemos que cidades planejadas para acolher e cuidar das crianças pequenas são experiências que têm trazido amplos resultados ao desenvolvimento infantil, impactando positivamente toda a sociedade. Casar essa ideia com ações de formação parental nas escolas é potencializar transformações sociais, tornando-as sistêmicas e sustentáveis”, ressaltou Sofia Rebehy, coordenadora de programas de primeira infância da United Way Brasil.

Capacitar para fortalecer a causa

Para garantir a continuidade bem articulada do programa nas escolas dos municípios parceiros, e fortalecer o que já vem sendo feito no Ceará, desde 2021, a equipe técnica realizou uma oficina de planejamento com os times escolares de Crato e Sobral. Em seguida, o próximo passo é apoiá-los para que elaborem o plano do programa em 2022. Com o objetivo de reunir todos “na mesma página”, será criada uma área exclusiva na plataforma Crescer Aprendendo Digital, da United Way Brasil, onde os profissionais poderão acessar aos conteúdos e dar continuidade às rodadas de formação parental digital, independentemente da equipe do Crescer Aprendendo, garantindo autonomia nas ações junto às famílias.